Juliana Bublitz
O ano era 1998. Na Assembleia Nacional Constituinte, em Brasília, o então senador José Fogaça havia acabado de participar da promulgação da Constituição. Os trabalhos estavam longe do fim. Era preciso concluir a legislação complementar, e Fogaça não sabia quando voltaria a Porto Alegre. A saudade bateu.
De madrugada, trancado no escritório, ele se pôs a escrever e a dedilhar o piano. Assim nasceram os versos que dariam vida a uma declaração de amor à capital gaúcha: Porto Alegre É Demais, hino informal da cidade.
A música ficou na gaveta.
‒ Lembro de não ter dado bola, porque estava no meu momento mãe. Tinha acabado de ter Martin, nosso primeiro filho ‒ conta Isabela, companheira vida de Fogaça.
Ela não fazia ideia do sucesso que viria pela frente, eternizada na sua voz, doce e melodiosa. Porto É Demais é o que é no timbre e no jeito de cantar dela, mas isso só viria à tona na década de 1990.
Por iniciativa do produtor musical Ayrton dos Anjos, o Patineti (falecido em 2024) surgiu a ideia de gravar um LP.
‒ A gravação aconteceu por volta de 1990. Fizemos tudo muito rápido, de forma corriqueira ‒ relembra ela.
O LP chegou ao mercado em 1992, mas a canção estourou em CD, pela Companhia Zaffari.
‒ Vendeu feito água. Foram mais de 120 mil cópias, e nós éramos chamados para todos os aniversários da cidade. A música criou pernas ‒ diz Isabela.
Criou mesmo: ganhou versões em francês, italiano, espanhol, inglês e até japonês. O que explica isso? Talvez, a simplicidade. A letra exalta a Capital falando das gurias, das manhãs de domingo, das pequenas coisas. E também de suas dores.
‒ Porto Alegre é como qualquer cidade do mundo: ela produz dores. Tanto que a música diz: “Porto Alegre me dói”. Por quê? Pelos problemas. Me faz sofrer também, é claro. Mas é onde eu quero viver e morrer ‒ conclui Fogaça.
Poro Alegre É Demais*
Por
Alegre é que tem
Um
jeito legal
É lá que as gurias etc. e tal.
Nas
manhãs de domingo,
Esperando
o Gre-nal,
Passear
pelo Brique,
Num
alto astral.
Porto
Alegre me faz
Tão
sentimental,
Porto
me dói
Não diga a ninguém.
Porto
Alegre me tem,
Não
leve a mal,
A
saudade é demais
É lá que eu vivo em paz.
Quem
dera eu pudesse
Ligar
o rádio e ouvir
Uma
nova canção
Do Kleiton e Kledir.
Andar
pelos bares,
Nas
noites de abril,
Roubar
de repente
Um beijo vadio.
Porto
Alegre me faz
Tão
sentimental,
Porto
Alegre me dói,
Não diga a ninguém.
Porto
Alegre me tem,
Não
leve a mal,
A
saudade é demais
É lá que eu vivo em paz.
* Letra
e música de José Fogaça, criada no fim da década de 1980 e considerada um hino
da capital gaúcha.
(Matéria do jornal Zero Hora, de 17.02.2025)

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