segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Uma declaração de amor

 Juliana Bublitz

O ano era 1998. Na Assembleia Nacional Constituinte, em Brasília, o então senador José Fogaça havia acabado de participar da promulgação da Constituição. Os trabalhos estavam longe do fim. Era preciso concluir a legislação complementar, e Fogaça não sabia quando voltaria a Porto Alegre. A saudade bateu. 

De madrugada, trancado no escritório, ele se pôs a escrever e a dedilhar o piano. Assim nasceram os versos que dariam vida a uma declaração de amor à capital gaúcha: Porto Alegre É Demais, hino informal da cidade. 

A música ficou na gaveta. 

‒ Lembro de não ter dado bola, porque estava no meu momento mãe. Tinha acabado de ter Martin, nosso primeiro filho ‒ conta Isabela, companheira vida de Fogaça. 

Ela não fazia ideia do sucesso que viria pela frente, eternizada na sua voz, doce e melodiosa. Porto É Demais é o que é no timbre e no jeito de cantar dela, mas isso só viria à tona na década de 1990. 

Por iniciativa do produtor musical Ayrton dos Anjos, o Patineti (falecido em 2024) surgiu a ideia de gravar um LP. 

‒ A gravação aconteceu por volta de 1990. Fizemos tudo muito rápido, de forma corriqueira ‒ relembra ela. 

O LP chegou ao mercado em 1992, mas a canção estourou em CD, pela Companhia Zaffari. 

‒ Vendeu feito água. Foram mais de 120 mil cópias, e nós éramos chamados para todos os aniversários da cidade. A música criou pernas ‒ diz Isabela. 

Criou mesmo: ganhou versões em francês, italiano, espanhol, inglês e até japonês. O que explica isso? Talvez, a simplicidade. A letra exalta a Capital falando das gurias, das manhãs de domingo, das pequenas coisas. E também de suas dores. 

‒ Porto Alegre é como qualquer cidade do mundo: ela produz dores. Tanto que a música diz: “Porto Alegre me dói”. Por quê? Pelos problemas. Me faz sofrer também, é claro. Mas é onde eu quero viver e morrer ‒ conclui Fogaça. 

Poro Alegre É Demais* 

Por Alegre é que tem

Um jeito legal

É lá que as gurias etc. e tal. 

Nas manhãs de domingo,

Esperando o Gre-nal,

Passear pelo Brique,

Num alto astral.

Porto Alegre me faz

Tão sentimental,

Porto me dói

Não diga a ninguém. 

Porto Alegre me tem,

Não leve a mal,

A saudade é demais

É lá que eu vivo em paz. 

Quem dera eu pudesse

Ligar o rádio e ouvir

Uma nova canção

Do Kleiton e Kledir. 

Andar pelos bares,

Nas noites de abril,

Roubar de repente

Um beijo vadio. 

Porto Alegre me faz

Tão sentimental,

Porto Alegre me dói,

Não diga a ninguém. 

Porto Alegre me tem,

Não leve a mal,

A saudade é demais

É lá que eu vivo em paz. 

*  Letra e música de José Fogaça, criada no fim da década de 1980 e considerada um hino da capital gaúcha.

(Matéria do jornal Zero Hora, de 17.02.2025) 

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