domingo, 16 de fevereiro de 2025

O início da polêmica

 Noel Rosa x Wilson Batista

Caricatura do Correio Braziliense 

Em 1934 se deu início a uma famosa disputa musical que dá o que falar até hoje. 90 anos depois, a disputa já rendeu inúmeras apresentações e gravações. Entrou na memória afetiva da história do samba como a polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, que aproveitou o embalo para ganhar evidência no início de sua carreira. Quando o jovem campista Wilson Batista chegou ao Rio de Janeiro, com cerca de vinte anos, ficou absolutamente deslumbrado com o ambiente da malandragem carioca no círculo social do samba. No final de 1933, uma composição sua, que exaltava escancaradamente o modo de vida do malandro, seria gravada por Silvio Caldas, uma das vozes mais requisitadas deste início da era de ouro do rádio. “Lenço no Pescoço”, de letra bem curtinha, dizia assim:

Lenço no pescoço

Wilson Batista

Meu chapéu de lado,

Tamanco arrastando,

Lenço no pescoço,

Navalha no bolso,

Eu passo gingando, 

Provoco e desafio,

Eu tenho orgulho 

De ser Vadio. 

Sei que eles falam

Deste meu proceder,

Eu vejo quem trabalha

Andar no miserê.

Eu sou vadio,

Porque tive inclinação,

Desde os tempos de criança, 

Tirava Samba-Canção. 

Noel Rosa resolveu responder o samba de Wilson. Ele estaria mesmo preocupado com a imagem negativa que atribuíam ao sambista por conta do envolvimento com a malandragem? Ou estava apenas se divertindo com a audácia do garoto campista, recém chegado de sua cidade natal? O fato é que se trata inequivocamente de uma divertida resposta à “Lenço no pescoço”.  Vamos à letra de:

Rapaz Folgado*

Noel Rosa

Deixa de arrastar o seu tamanco,

Pois tamanco nunca foi sandália.

Tira do pescoço o lenço branco,

Compra gravata e sapato,

Joga fora essa navalha, 

Que te atrapalha. 

De chapéu de lado, deste rata,

Da polícia quero que escape,

Fazendo samba-canção,

Já te dei papel e lápis, 

Arranje um amor e um violão. 

Malandro é palavra derrotista,

Que só serve para tirar 

Todo valor do sambista.

Proponho ao povo civilizado

Não te chamar de malandro 

E sim de rapaz folgado. 

Depois disso, cada um deles fez várias músicas que gerou uma polêmica com vários sambas geniais. Todas as canções de réplicas e tréplicas estão no LP ou CD da capa abaixo.

P.S. O título da música e o seu último verso: “rapaz folgado” são as duas maiores gozações de Noel Rosa a Wilson Batista. Segundo pesquisadores, nos anos 30, “rapaz folgado” se referia a “homens” que tinham o fiofó folgado, isto é, a gays da época, o que deve ter deixado Wilson Batista “puto da cara”, saindo daí uma troca de sambas onde um atacava o outro ou o lugar onde um deles residia, no caso de Noel, a Vila Isabel, até Wilson apelar com o samba Frankenstein da Vila, que Noel não respondeu, pois se sentiu muito ofendido acabando com a polêmica entre os dois, não compondo mais nada.

Frankenstein da Vila

Wilson Batista

Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém
Que até parece um Frankenstein.
Mas como diz o rifão:

Por uma cara feia perde-se um bom coração.
Entre os feios és o primeiro da fila,
Todos reconhecem lá na Vila.
Essa indireta é contigo
E depois não vá dizer
Que eu não sei o que digo.
Sou teu amigo...

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