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Jack Rubens foi um tipo humano fora da curva e um dos pacientes mais interessantes que encontrei na minha vida médica. Radialista, boêmio, poeta e anarquista. Com o passado político conturbado, construiu uma biografia capaz de encantar a quem se dispusesse a ouvi-lo. Com a cabeça branca, ar fidalgo e fôlego curto, internou-se na Santa Casa para tratar uma infecção pleural adquirida na época romântica em que a tuberculose esteve associada à intelectualidade.
Um residente de primeiro ano, muito mais preocupado em preencher a ficha de internação do que em conhecer a trajetória do entrevistado, se deu conta, já sentado, de que não lembrava o nome do paciente, e na sua inocência de novato passou a chamá-lo de vozinho. Concluída a anamnese com vozinho para cá, vozinho pra lá, Jack Rubens agradeceu-lhe a visita assegurando-lhe que seria um grande médico, porque era muito carinhoso e essa qualidade era indispensável. Mas ele tinha uma história para lhe contar:
‒ Meu pai sempre repetia que todo homem deve ter dois filhos, essa coisa de preservação da herança genética. E ele teve dois filhos. E eu e meu irmão também tivemos dois filhos, e nossas crias já cumpriram a determinação”.
Então fez uma pausa que só serviu para aumentar a angústia do jovem residente, que não estava entendendo nada daquela história. E concluiu, implacavelmente:
‒ Desculpe, doutor, mas eu precisava lhe contar isso para que o senhor soubesse que eu já tenho os netos que planejei.
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* Parte da crônica “O que não tem conserto”, de J.J. Camargo, cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplante da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina, inserida no caderno Vida do jornal Zero Hora, fevereiro de 2025.
P.S. O título “O vozinho” foi dado à crônica pelo Almanaque Cultural Brasileiro.

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