Tudo começou numa manhã qualquer, no pátio da escola. Davi, 9 anos, estava sentado no canto, olhando para o próprio pé. Ou melhor… para onde deveria estar um tênis.
Enquanto os colegas corriam, brincavam e riam, ele segurava o choro. Sabia que, na volta pra casa, ouviria aquilo que já estava acostumado:
‒ “Se perdeu, se vira. A vida não dá moleza pra quem é fraco.”
De repente, uma voz doce, porém decidida, quebrou seu pensamento:
‒ “Perdeu alguma coisa?”
Era Júlia. Mesma idade, olhos atentos, cabelos presos num rabo de cavalo meio bagunçado.
Davi tentou disfarçar:
‒ “Não… nada, não.” ‒ respondeu, envergonhado.
Mas ela percebeu. E, sem dizer mais nada, saiu andando. Sumiu no corredor.
Minutos depois, voltou correndo, com um par de tênis usado nas mãos.
‒ “Tá meio velho... é meu do ano passado. Serve em você?”
Ele ficou sem saber o que dizer. Olhou pra ela, depois para o tênis. E, naquele instante, algo aconteceu. Não era só sobre calçar os pés… era sobre preencher o vazio de quem se sente invisível.
Daquele dia em diante, tornaram-se inseparáveis. Cresceram juntos. Escola, ônibus, trabalho, vida. Aonde um ia, o outro dava um jeito de ir também.
Nos piores dias, quando o mundo parecia desabar, eles só precisavam olhar um para o outro para lembrar:
‒ “A gente não veio até aqui pra desistir.”
E nos melhores dias… bom, eles simplesmente se olhavam e sabiam:
‒ “Nada disso teria graça... se não fosse você do meu lado.”
Anos depois, na formatura da faculdade, Davi segurou o microfone, olhou para a plateia cheia e disse:
‒ “Muitos aqui me veem como alguém que venceu. Mas o que poucos sabem... é que eu só estou aqui porque, um dia, uma menina viu um menino sem tênis... e, em vez de rir, escolheu ser sua amiga.”
E olhando pra Júlia, que chorava na primeira fileira, completou:
‒ “Obrigado... por ser meu chão quando eu não tinha nem sapato pra pisar nele.”
Porque amizade... não se mede em anos. Se mede em gestos. E, às vezes, começa do jeito mais simples do mundo:
Com alguém que olha pra você... e simplesmente escolhe não te deixar sozinho.
(Autor desconhecido)

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