quinta-feira, 19 de junho de 2025

O nascimento de uma bela canção

 

Imagem criada por AI 

1937, era fim de tarde no Rio de Janeiro, e o Café Nice* fervilhava com os sons da cidade e o burburinho de conversas animadas. Num canto mais reservado, sob a luz amarelada que pendia do teto de gesso, duas figuras se destacavam: o compositor Assis Valente, sempre efusivo e cheio de ideias, e o príncipe da voz, Orlando Silva, elegante e sereno. 

Sobre a mesa, uma partitura inacabada descansava ao lado de duas xícaras de café forte. Assis explicava com entusiasmo a melodia de um novo samba que intitulava “Alegria”. Seus dedos tamborilavam sobre o compasso, como se marcassem o ritmo que nascia. Orlando, atento, apontava para uma passagem melódica, sugerindo uma leve inflexão na segunda estrofe. 

‒ “Esta parte aqui, Assis… e se eu subir o tom com mais suavidade? Dá uma sensação mais lírica, mais apaixonada, entende?” 

Assis sorriu largo. Era isso. Era por isso que ele queria Orlando cantando suas músicas: porque aquele homem sabia transformar sentimento em som. 

Ali, naquele encontro, nascia não só mais uma parceria, mas também uma amizade tecida em notas, pausas e silêncios. A canção “Alegria” logo ganharia o coração do povo, e aquela tarde no Café Nice se tornaria uma daquelas lembranças que o tempo não apaga ‒ como uma fotografia em sépia que ainda pulsa com vida. 

Fonte: No Tempo de Carmem Miranda 

* Na imagem Café Nipse 

Café Nice foi um café-bar da cidade do Rio de Janeiro que, na primeira metade do século XX, reunia a boemia carioca e foi palco de muitos acontecimentos no meio artístico e, por isto, objeto de várias referências culturais. Estava situado na Avenida Rio Branco, número 174. 

(Post de José Alberto Siqueira Gomes)

Tendo seu auge nas décadas de 1930 e 1940, com intensa frequência de artistas, dentre os quais se destacavam Noel Rosa, Wilson Batista, entre outros, ou mesmo jornalistas como Mário Filho que, nas páginas do jornal O Globo, publicava uma seção de entrevistas com jogadores de futebol e torcedores ‒ o “cafezinho com os entrevistados” ‒ onde no Café Nice este se encontrava com os principais nomes do meio futebolístico carioca. 

Tinha uma localização privilegiada na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, o que lhe favoreceu a frequência; naquela região a lei obrigava que os frequentadores trajassem vestimentas formais, então mesmo os mais simples clientes trajavam terno e gravata, uma vez que a maioria deles era de homens. Sobre ele registrou Osmar Frazão: “Em frente ao Café Nice ficava o Cinema Parisiense. Foi o primeiro a ser instalado na Rio Branco, em 1907. Ao lado ficava o Cineac Trianon. Nesse trecho ainda tinha a Rádio Clube do Brasil e o Theatro Municipal mais à frente. Então, era um ponto de encontro maravilhoso, que teve uma representatividade muito grande na história do Rio de Janeiro, para a boemia e o lazer”. Apesar disto, o estabelecimento fechou na metade da década de 1950. 

Alegria 

Assis Valente e Durval Maia 

Alegria pra cantar a batucada,

As morenas vão sambar,

Quem samba tem alegria.

Minha gente era triste, amargurada,

Inventou a batucada,

Pra deixar de padecer,

Salve o prazer, salve o prazer.

 

Da tristeza não quero saber,

A tristeza me faz padecer.

Vou deixar a cruel nostalgia,

Vou fazer batucada,

De noite e de dia vou cantar.

 

Alegria pra cantar a batucada,

As morenas vão sambar,

Quem samba tem alegria.

Minha gente era triste, amargurada,

Inventou a batucada,

Pra deixar de padecer,

Salve o prazer, salve o prazer.

 

Esperando a felicidade,

Para ver se eu vou melhorar.

Vou cantando, fingindo alegria,

Para a humanidade,

Não me ver chorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário