segunda-feira, 2 de junho de 2025

É complicado

 Carpinejar

(...) 

A expressão (É complicado) pode ser a constatação de estar diante de um chato, ou de um inoportuno, ou de um fofoqueiro, ou de um tipo que já se mostra absolutamente indiscreto. 

Trata-se de uma estratégia moderna de dispersão. Um recurso de linguagem da isenção, para permanecer em cima do muro. 

‒ O que acha do tarifaço do Trump? 

‒ É complicado. 

‒ Como analisa o rombo da Previdência? 

‒ É complicado. 

‒ Como reages à alta dos juros no Brasil? 

‒ É complicado. 

‒ A dívida pública está fora do controle? 

‒ É complicado. 

‒ E esse dólar, jamais vai baixar? 

‒ É complicado. 

‒ Vai ter reforma tributária de verdade ou só maquiagem? 

‒ É complicado. 

‒ A China vai mesmo dominar o mundo até 2050? 

‒ É complicado. 

‒ A inteligência artificial substituirá os jornalistas? 

‒ É complicado. 

‒ Relacionamento aberto funciona? 

‒ É complicado. 

‒ Cancelamento tem poder de cancelar alguém para sempre? 

‒ É complicado. 

‒ Ainda temos tempo de salvar o planeta? 

‒ É complicado. 

‒ Quanto mais durará a guerra na Ucrânia? 

‒ É complicado. 

‒ Por que a influenciadora Virgínia Fonseca e o cantor sertanejo Zé Felipe se separaram? 

‒ É complicado. 

‒ Por que toda música viral no TikTok começa com “Cê acredita”? 

‒ É complicado. 

Nunca são perguntas inofensivas. É uma cilada: prepare-se, que lá vem tese. 

O complicado cabe para tudo ‒ para não dizer nada. 

Aliás, quem você acha que ganhará as próximas eleições presidenciais no Brasil?  

(Do jornal Zero Hora, 30 de maio de 2025) 

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