Carpinejar
(...)
A expressão (É complicado) pode ser a constatação de estar diante de um chato, ou de um inoportuno, ou de um fofoqueiro, ou de um tipo que já se mostra absolutamente indiscreto.
Trata-se de uma estratégia moderna de dispersão. Um recurso de linguagem da isenção, para permanecer em cima do muro.
‒ O que acha do tarifaço do Trump?
‒ É complicado.
‒ Como analisa o rombo da Previdência?
‒ É complicado.
‒ Como reages à alta dos juros no Brasil?
‒ É complicado.
‒ A dívida pública está fora do controle?
‒ É complicado.
‒ E esse dólar, jamais vai baixar?
‒ É complicado.
‒ Vai ter reforma tributária de verdade ou só maquiagem?
‒ É complicado.
‒ A China vai mesmo dominar o mundo até 2050?
‒ É complicado.
‒ A inteligência artificial substituirá os jornalistas?
‒ É complicado.
‒ Relacionamento aberto funciona?
‒ É complicado.
‒ Cancelamento tem poder de cancelar alguém para sempre?
‒ É complicado.
‒ Ainda temos tempo de salvar o planeta?
‒ É complicado.
‒ Quanto mais durará a guerra na Ucrânia?
‒ É complicado.
‒ Por que a influenciadora Virgínia Fonseca e o cantor sertanejo Zé Felipe se separaram?
‒ É complicado.
‒ Por que toda música viral no TikTok começa com “Cê acredita”?
‒ É complicado.
Nunca são perguntas inofensivas. É uma cilada: prepare-se, que lá vem tese.
O complicado cabe para tudo ‒ para não dizer nada.
Aliás, quem você acha que ganhará as próximas eleições presidenciais no Brasil?
(Do jornal Zero Hora, 30 de maio de 2025)

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