Moacyr Scliar
Cantem hoje minhas glórias em
estrofes belas,
mas me arranjem alguém para lavar as panelas.
Digam que sou uma grande
pessoa, uma santa verdadeira,
mas peçam a alguém para manejar a enceradeira.
Sim, vocês querem se prostrar
a meus sapatos,
mas, pergunto, quem vai lavar os pratos?
Vocês me prometem, pelo resto
da vida, veneração desenfreada,
mas prefiro, contudo, uma fiel empregada.
Dizem que mereço fazer parte
de um concelho egrégio,
talvez, mas quem leva o caçula ao colégio?
Sei que, por meus méritos,
tenho com Deus encontro marcado,
só se for no nosso supermercado.
Digam que eu fiz, como mãe,
bela carreira,
mas, por favor, não saqueiem a geladeira.
É voz corrente: mãe, só uma.
Claro: todas as camas, sou quem arruma.
“Ser mãe é desdobrar fibra
por fibra o coração”
‒ e fazer com tais fibras a vassoura e o esfregão?
É um dia glorioso, hoje, um
dia exemplar.
Tudo bem. Quem fará o almoço e o jantar?
Perdoem, filhos, a franca
resposta a vossa elegia.
Tendes mãe todos os dias
‒ mas mãe só tem um dia!
Não posso, filhos, conter
este coração que bate:
dizei-me, por favor, fazer
uma torta de chocolate,
pois hoje temos uma grande
alegria
‒ mas mãe só tem um dia!

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