Difícil atravessar o Largo dos Açorianos sem sentir algum desânimo. A Ponte de Pedra, um dos pilares mais antigos da memória de Porto Alegre, agora serve de moldura para um amontoado de rabiscos horríveis, assinaturas inúteis e sujeira gratuita. O local havia sido revitalizado pela Prefeitura em 2019 ‒ e, por algum tempo, chegou a figurar entre as áreas públicas mais bonitas da cidade. Hoje, é mais um cenário que a pichação ajuda a destruir.
Acho curioso que, no meio cultural e acadêmico, há sempre algum pudor em criticar essa modalidade (pichação) de vandalismo. Como se reprovar a rabisqueira fosse elitista ou insensível. Como se cada pichação carregasse a voz dos excluídos ‒ e calar essa linguagem seria oprimi-los ainda mais. Só que é difícil chamar de linguagem o que não comunica nada. No máximo, esses códigos conversam entre si: são como uma bolha grafada em concreto, indiferente ao resto do mundo, justamente num território concebido para ser de todos ‒ o espaço público.
Houve uma época, de fato, em que pichar não só era justificável como era necessário. No Estado Novo e na ditadura militar, pintavam-se as paredes para alertar a sociedade sobre o regime tirânico. Porque, claro, só tinham sobrado as paredes: a imprensa fora censurada, a oposição fora cassada, toda divergência fora calada. Não havia formas de se expressar, não havia redes sociais, então a pichação tornou-se uma rara via de contato entre a população e o outro lado.
Passado esse período de trevas, permaneceu uma aura romântica em torno de uma contravenção que, atualmente, só serve para alimentar vaidade. As pichações não têm indicativo político, não incitam reflexão, não defendem mudanças, não denunciam coisa nenhuma: são apenas sinais ou nomes cifrados que, se por um lado exigem ser vistos, por outro negam o direito de alguém responder.
Aliás, o que mais me incomoda não é o rabisco, é a covardia. Quer pichar o Palácio Piratini?* Vá lá ‒ ao menos haveria alguma contestação ao poder. Mas a escolha recai sempre sobre o alvo mais frágil: a vendinha da esquina, a escola pública, o prédio histórico, a pracinha do bairro. O spray castiga quem mal consegue pagar uma demão de tinta, mas recua diante da mansão com segurança na porta.
Estranho é que basta cruzar a fronteira para esse desrespeito virar reverência. Todo mundo adora ver a história preservada nos outros ‒ em Roma, Madri, Berlim ‒, mas quando monumento é a nossa Ponte de Pedra, aí cuidar vira opressão burguesa.
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* Da crônica “Rebeldia covarde”, de Paulo Germano, do jornal Zero Hora, de 27.06.2025.
* Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul é sempre muito bem vigiado e protegido pelas Forças de Segurança do Estado.

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