sábado, 6 de dezembro de 2025

Os paladinos do vernáculo

 

Havia o severíssimo monsenhor cujos paroquianos, na década de quarenta (em Porto Alegre), eram controlados com mão de ferro. 

Certa manhã de domingo, um passarinho entrou desavisadamente na igreja lotada. Todos distraíram-se com o desesperado esvoaçar do animalzinho à busca da saída.  O vigilante sacerdote interrompeu o sermão e determinou, entre severo e entediado. 

‒ As mulheres baixem a cabeça e os homens botam o passarinho pra fora. 

Noutra feita, considerou profana a presença no templo de moças vestindo os então slacks (calça comprida). Parou a celebração e exigiu: 

‒ Permaneça, no recinto apenas as mulheres que estiverem sem calça. Saiam as de calça. 

Às vésperas de uma procissão, resolveu organizar melhor as coisas: 

‒ ... As moças, por exemplo: não são elas que devem levar a vela na frente; quem tem que levar vela na frente são as mais velhas e experimentadas; as mais novas têm que levar vela atrás. 

(...) 

Do livro: “Anedotário da Rua da Praia 3,

de Renato Maciel de Sá Junior. 

Anedotário da Rua da Praia 1, Anedotário da Rua da Praia 2 e Anedotário da Rua da Praia 3, e escritas no período de 1981 a 1983. Essas crônicas fornecem um testemunho único sobre a sociedade da época e a memória de uma outra Porto Alegre, a dos anos 1940 e 1950.  

Renato Maciel de Sá Júnior – era um multi-homem: baterista, advogado, executivo e autor da série de livros Anedotário da Rua da Praia, sucesso de vendas na Porto Alegre dos anos 1980. Nascido carioca, em 27 de abril de 1941, Renato veio para Porto Alegre ainda moço. Faleceu em Porto Alegre em 1992. 

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