domingo, 14 de dezembro de 2025

Amor da minha vida

 Carpinejar

Ia dormir e não parava de sentir o amor por você. Vim a Brasília para conduzir uma palestra. Eu me inundei das cenas de seu riso, de seu cheiro, de seu beijo, de sua troca de sapatos e roupas até acertar a cor de seu momento. 

Quando falo com você, você fala dentro de mim. São duas vozes. Você mora também em mim. 

Adoro despertar ao seu lado. Qualquer que seja o dia, é feriado em minha alma quando nossos hábitos nos abraçam: tomamos o nosso shot de saúde com limão e gengibre; sentarmos na mesa da sala lendo os jornais; eu me preocupar se o café permanece quente, e eu perguntar se gostaria que eu buscasse mais um pouco. Esperar aquele gole do seu olhar castanho, que mata a minha saudade do sol. Só depois vou para a janela. Só depois. A luz passa primeiro por você. 

Mesmo quando não nos olhamos, olhamos para a mesma direção ‒ o que é o equivalente a jamais desviarmos os olhos um do outro. 

“Como eu te amo” ‒ constatava ‒, “eu te amo tanto” ‒ e o arroubo somente aumentava. Fiquei assustado: o amor crescia sem parar, de repente, no meio da madrugada. Apesar de já amar muito, já amar loucamente. 

Eu me questionei: “isso não vai parar nunca?”. Não que eu quisesse que cessasse, mas me mostrava surpreso com essa força gradual e constante preenchendo o que eu nem cogitava existir. Sou mais fundo quando me pego pensando em você. 

O movimento é idêntico ao das águas escuras de um rio de que jamais detalhamos a altura. Seguro-me nas beiradas dessa emoção entre nós, vou me esgueirando com os pés e não toco o solo. Só se entra mergulhando, não andando. 

Percebi que fui educado para amá-la. Você é exatamente a pessoa  de quem eu precisava, mais do que com quem eu sonhava Todas as minhas crenças, todos os meus princípios me prepararam para conhecê-la. 

Por isso nos encontramos no tempo certo ‒ mais cedo seria imaturo ‒, no tempo certo para corrigir tudo o que eu errei, aprender o que precisava e fazer por merecer sua companhia. Parece que, antes de você, fiquei construindo uma ponte para atravessarmos juntos. 

O que me arrebatava por inteiro naquela noite não era angústia, mas uma paz inigualável, como se eu pudesse morrer feliz por ter enfim a minha pessoa predileta comigo. Se tudo acabasse agora, eu estaria profundamente realizado: tive a chance de viver com o amor da minha vida. Mas o sentimento envolve gratidão estranhamente me dá mais vontade de viver. 

(Do jornal Zero Hora, dezembro de 2025)

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