não é apenas uma ausência.
É um silêncio que ecoa.
É como crescer com um espaço vazio dentro do peito, um espaço que ninguém vê, mas que molda tudo: os afetos, os medos, as escolhas, até a maneira de respirar diante da vida.
O abandono paterno não é só a falta de alguém que não veio:
É a falta de respostas.
É o corpo perguntando: por que não fui escolhido?
É a alma tentando costurar buracos que não fez.
É aprender cedo demais a se proteger.
É se construir em cima de perguntas que nunca tiveram dono.
É carregar uma força enorme, mas que nasceu da dor, não da leveza.
Para muitos, é sentir que sempre falta um pedaço.
Para outros, é perceber que, mesmo sem esse pedaço, continuam inteiros.
Porque a vida, teimosa, segue abrindo caminhos.
O abandono de um pai deixa marcas, sim.
Mas também ensina que é possível se levantar sem ter quem deveria ter segurado a tua mão.
Ensina que família pode ser escolhida.
Que amor pode nascer do cuidado de outras pessoas.
Que pertencimento pode ser construído.
E, aos poucos, a gente entende que não foi a nossa insuficiência que afastou alguém.
Foi a incapacidade dele de ficar.
No fim, o abandono não define quem somos.
Ele apenas revela a força silenciosa de quem aprendeu a existir mesmo sem o que deveria ter tido.
E,
com o tempo, vem também a tarefa mais delicada: se desprender do medo de que
sempre será trocado, descartado, deixado para depois.
Porque o abandono cria essa cicatriz invisível que faz o coração acreditar que tudo é provisório, que ninguém fica, que o amor é sempre uma porta entreaberta prestes a bater com força.
Mas esse medo, embora compreensível, não é destino.
Ele é uma memória antiga tentando se proteger.
É o corpo dizendo: “não deixa doer de novo”.
Desprender-se disso é um processo.
É olhar para dentro e dizer a si mesma que agora há escolhas, limites, consciência.
Que você já não é mais a criança que esperava por alguém que não vinha.
É perceber que quem te ama de verdade não te troca, te escolhe.
Não te descarta, te reconhece.
Não some, constrói contigo.
A cura começa quando você entende que o abandono que viveu não é uma promessa do futuro, nem um espelho do seu valor.
É apenas um capítulo duro de uma história que você continua escrevendo com muito mais coragem do que imagina.
E, ao soltar esse medo, você abre espaço para algo novo:
relações que sustentam, afetos que acolhem, vínculos que ficam.
E, principalmente, a sensação suave de que você, enfim, pode descansar no amor, sem medo de desaparecer.
Por Psicóloga Aline Moraes
(CRP 07/29853)

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