sábado, 13 de dezembro de 2025

O abandono de um pai

 não é apenas uma ausência.

É um silêncio que ecoa. 

É como crescer com um espaço vazio dentro do peito, um espaço que ninguém vê, mas que molda tudo: os afetos, os medos, as escolhas, até a maneira de respirar diante da vida. 

O abandono paterno não é só a falta de alguém que não veio: 

É a falta de respostas. 

É o corpo perguntando: por que não fui escolhido? 

É a alma tentando costurar buracos que não fez. 

É aprender cedo demais a se proteger. 

É se construir em cima de perguntas que nunca tiveram dono. 

É carregar uma força enorme, mas que nasceu da dor, não da leveza. 

Para muitos, é sentir que sempre falta um pedaço. 

Para outros, é perceber que, mesmo sem esse pedaço, continuam inteiros.

Porque a vida, teimosa, segue abrindo caminhos. 

O abandono de um pai deixa marcas, sim. 

Mas também ensina que é possível se levantar sem ter quem deveria ter segurado a tua mão. 

Ensina que família pode ser escolhida. 

Que amor pode nascer do cuidado de outras pessoas. 

Que pertencimento pode ser construído. 

E, aos poucos, a gente entende que não foi a nossa insuficiência que afastou alguém. 

Foi a incapacidade dele de ficar. 

No fim, o abandono não define quem somos. 

Ele apenas revela a força silenciosa de quem aprendeu a existir mesmo sem o que deveria ter tido. 

E, com o tempo, vem também a tarefa mais delicada: se desprender do medo de que sempre será trocado, descartado, deixado para depois.

Porque o abandono cria essa cicatriz invisível que faz o coração acreditar que tudo é provisório, que ninguém fica, que o amor é sempre uma porta entreaberta prestes a bater com força. 

Mas esse medo, embora compreensível, não é destino. 

Ele é uma memória antiga tentando se proteger. 

É o corpo dizendo: “não deixa doer de novo”. 

Desprender-se disso é um processo. 

É olhar para dentro e dizer a si mesma que agora há escolhas, limites, consciência. 

Que você já não é mais a criança que esperava por alguém que não vinha. 

É perceber que quem te ama de verdade não te troca, te escolhe. 

Não te descarta, te reconhece. 

Não some, constrói contigo. 

A cura começa quando você entende que o abandono que viveu não é uma promessa do futuro, nem um espelho do seu valor. 

É apenas um capítulo duro de uma história que você continua escrevendo com muito mais coragem do que imagina. 

E, ao soltar esse medo, você abre espaço para algo novo: 

relações que sustentam, afetos que acolhem, vínculos que ficam. 

E, principalmente, a sensação suave de que você, enfim, pode descansar no amor, sem medo de desaparecer. 

Por Psicóloga Aline Moraes

(CRP 07/29853)

Nenhum comentário:

Postar um comentário