segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Pela janela, tudo se transformou

 Campereada 

Paulo Mendes

Era uma janela bem esquisita. Duas folhas de correr, ambas envidraçadas, e um postigo de dobradiça que se abria para cima e era preso no teto por uma corrente. Em frente, estava a mesa da cozinha. Pela janela, se via a estrada real e todos e tudo o que passava. Eram tropas, já poucas, tratores, ceifadeiras, caminhões, algumas bicicletas, carroças, poucas carretas de bois. O pampa mudava. A BR 158, lá atrás das taquareiras, havia sido asfaltada e, à noite, o ronco dos grandes caminhões entrava em nossa humilde casa de madeira, ao lado do bolicho. Os apitos dos tens amainaram e as fazendas de gado estavam virando lavouras de trigo e soja. Mais tarde, apenas soja. Os gaúchos indiáticos e melenudos, de bota, bombacha, tirador e chapéu de aba larga, deram lugar a jovens de cabelos e olhos claros, uns tipos que usavam calça jeans e boné, e que vinham da Serra e da região Noroeste. 

Daquela estranha janela percebi os sinais. Os indícios da transformação que se iniciava aos poucos e ia ganhando força. Mas era apenas o começo, nunca imaginávamos que tudo mudaria tanto, do jeito que foi. Quando me despedi do balcão, das vacas de leite, dos clientes que restavam, a estrada era de chão e recém haviam cortado os cinamomos para estender a rede elétrica. A empresa que instalou os postes exigiu que as árvores fossem cortadas. Não sobrou nada. Os velhos cinamomos onde havia feito minhas sesteadas no tempo de criança viraram lenha. Fiquei aborrecido. A partir daí foi só tristeza. A energia elétrica, que era para trazer progresso, cobrou seu preço. E não foi barato. 

A cada ano que voltava via que mais um pouco se perdia. Primeiro, o bolicho fechou. Nossas antigas casas ruíram pela ação do tempo. Meu irmão foi morar na velha esquina Maboni, dona Mirica nossa mãe, a comerciante, morreu, e o lugar que vivemos por tantos anos foi tomado pela hera. Muitos de nós, daquela época, também se foram, largaram de tiro para os campos elísios. “É a vida”, se ouve aqui e ali, mas nunca me conformei. Olho para minhas rugas e os poucos cabelos brancos e tenho pena de ir também, qualquer dia, sem nunca mais matear numa manhã de primavera, sem ver o pôr do sol castilhense e nem ouvir a passarada cantando ao amanhecer. Sem nunca mais sentir o gosto da água fresca de poço, sem um domingo de tarde, sem um sábado de manhã. Tomar um copo de leite gelado com goiabada, abraçar os amigos queridos, essas coisas tão simples e maravilhosas da vida. 

Ah, como queria abrir mais janelas, ver nem que fosse o trigo florido, minhas coxilhas verdejantes, os pátios de chácaras pequenas, com um açude na frente, um cavalo pastando, uma vaca de leite, alguns borregos, as maçanilhas floridas, um colono de chapéu de palha arando a terra com arado 9 e assobiando para a junta de bois mansos. Uns gaúchos montados repontando uma tropa rumo à charqueada. Um carroção de melancias andando na estradinha do Cerrito. Um assado de domingo, debaixo das taquareiras, com o rádio ligado, muitas risadas com parentes. 

Mas não posso mais enxergar nada disso, essas imagens não existem mais, a não ser aqui, nas Campereadas*. Por isso, escrevo, dia e noite, meses após meses, anos depois de anos. Sem parar, num círculo sem saída ou chegadas, inventando ciclos e séculos. As cercas, as portas e as janelas se fecham para que a literatura se abra e a arte se faça. E tudo recomece. 

(Do Correio do Povo Rural, 30.11.2025) 

*Campereadas, título da crônica dominical de Paulo Mendes, no jornal Correio do Povo. 

Glossário 

Pampa: planície muito extensa com pouquíssimo mato, mas muito rica em pastagens. 

Indiático: que tem pele, feições ou traços de índio. 

Melenudo: que tem grande melena; guedelhudo, cabeludo. 

Tirador: couro cru sovado que os laçadores põem em volta da cintura quando laçam a pé e que serve para proteger as ilhargas quando o laço estica. 

Coxilha: campina com pequenas elevações, arredondas, em geral cobertas de pastagens, e onde se desenvolve a pecuária. 

Charqueada: estabelecimento onde se charqueia a carne; mesmo que saladeiro. 

Junta: parelha de bois mansos que, lado a lado, puxam a carreta ou o arado. 

Repontar: tocar os animais em direção a um lugar determinado. 

Campereada: ato de camperear. Cavalgada pelo campo para ver o gado, separar algumas cabeças para venda, abate ou transferência para outra invernada (pastagem).

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